Febre especulativa #IBOVESPA


 Nos últimos anos o mercado passou a tratar retornos extremos como se fossem normais. Ganhos de 20%, 50% ou até 100% ao ano deixaram de ser exceção estatística para se tornarem expectativa implícita de sucesso. Gary Mishuris lembra que, historicamente, os retornos reais sempre foram muito mais modestos: ações entregaram algo próximo de inflação mais 6,5% no longo prazo, títulos públicos pouco acima da inflação e caixa praticamente apenas preservou poder de compra. Esse padrão não é limitação do sistema financeiro, mas sua natureza.

Quando investidores extrapolam períodos excepcionais como regra permanente, a percepção de risco se distorce. Estratégias passam a ser construídas não para atravessar ciclos, mas para capturar movimentos rápidos. A disciplina cede lugar à narrativa e o processo de investimento passa a ser medido por resultados de curto prazo, não por consistência.

Mishuris destaca que o foco deveria estar no processo — tempo dedicado à análise, critérios elevados de qualidade, paciência para esperar oportunidades e redução de atividade desnecessária. Em mercados eufóricos, operar menos tende a ser mais eficiente do que reagir a cada oscilação. É justamente o oposto do comportamento observado em fases de moda financeira.

Esse ambiente é reforçado pelos próprios incentivos corporativos. Matt Levine descreve a proliferação dos pacotes de remuneração “moonshot”, estruturados para pagar fortunas aos executivos se as ações alcançarem valorizações extremas, enquanto o custo pessoal de fracassos sucessivos permanece limitado. O resultado prático é a transformação da gestão empresarial em uma sequência de apostas assimétricas.

O foco deixa de ser crescimento previsível e geração de caixa estável para se tornar a busca pelo próximo evento explosivo de valorização. Projetos de risco elevado com baixa probabilidade de sucesso passam a ser economicamente racionais dentro dessa estrutura de incentivos.

A mesma lógica migrou para os mercados financeiros. Empresas passaram a ser precificadas não pelo valor intrínseco de seus fluxos de caixa, mas por sua capacidade de emitir ações caras e adquirir ativos da moda. A chamada “diluição accretiva” cria valor enquanto o entusiasmo sustenta os preços, mas deixa estruturas frágeis quando a narrativa se esgota.

Esse conjunto de fatores caracteriza fases avançadas de ciclos financeiros, marcadas por extrapolação de retornos recentes, compressão artificial de risco percebido e dominância de ativos sustentados por narrativa.

 


Historicamente o ouro tendia a cair quando os juros reais subiam, devido ao custo de oportunidade. Essa relação se rompeu de forma clara, indicando que o mercado passou a precificar risco fiscal e monetário acima da política de juros.

Com a retomada da fraqueza do dólar em 2026, o ouro entrou em aceleração mais intensa, ampliando o movimento de proteção contra perda de poder de compra global.

Tem se difundido a ideia de que a alta do ouro estaria sendo puxada por bancos centrais, como reação à “weaponização” do dólar após as sanções contra a Rússia em 2022. Os dados do FMI, porém, não mostram qualquer aceleração relevante dessas compras desde então. Elas seguem em ritmo lento e constante, incapaz de explicar a disparada recente. Além disso, o rali ocorre também em prata, platina e paládio — algo que não faria sentido se o movimento fosse liderado por autoridades monetárias. A explicação mais simples é a de sempre: um surto especulativo típico de fases de euforia, impulsionado principalmente por investidores de varejo.

 


O artigo de Mishuris ajuda a entender por que esses momentos se repetem ao longo da história. Em ambientes de euforia, investidores tendem a relaxar padrões de qualidade, pagar múltiplos cada vez mais elevados e justificar riscos com narrativas de que “desta vez é diferente”. Quando os critérios se deterioram gradualmente, o sistema como um todo se torna mais vulnerável a choques.

Outro ponto central é a diferença entre atividade e produtividade no investimento. Mercados voláteis incentivam negociações constantes, mas, no longo prazo, essa movimentação excessiva normalmente beneficia intermediários e amplia erros de timing. Em ciclos avançados, a pressão para agir é maior justamente quando a prudência deveria ser maior.

Mishuris também enfatiza a importância de manter convicções apenas quando baseadas em análise sólida. Em ambientes de moda financeira, convicção costuma ser confundida com entusiasmo coletivo. O resultado é concentração em ativos populares, baixa diversificação real de risco e alta correlação entre portfólios.

Quando se juntam os incentivos corporativos ao risco extremo, a especulação baseada em narrativa e o abandono de processos disciplinados de investimento, o sistema passa a operar com fragilidade crescente.

  

Análise Técnica

Na Análise Técnica do post “O fim da ilusão monetária”, fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

“considerando que a onda 3 verde foi deslocada para contemplar um triângulo destacado na elipse, esse cenário passa a ser o mais provável — e foi o que ocorreu. A bolsa caminha agora para dois objetivos: 178,4 mil (mais provável) ou 192,1 mil.”




Eu, que sempre reclamei da bolsa brasileira, ela resolveu me mostrar que eu estava errado e que os movimentos de correção que eu havia mencionado deram luz a um movimento direcional de respeito. Não posso me abster da realidade, e ela agora indica que estamos em uma onda 3 de 3. Adaptei, portanto, a contagem para essa alternativa. Sob essa nova ótica, o objetivo passa a ser ao redor de 230 mil, como mostra o gráfico em janela mensal a seguir.




— Hahaha. Eu te avisei, David, que você estava muito negativo.

Sem gozação! Não fique muito excitado. Quero lembrar que o gráfico é mensal e, embora ondas 3 tendam a ser violentas, nunca se sabe quando terminam. Vamos com calma: esse objetivo pode levar tempo. No meio do caminho, vamos atualizando o stop loss para 160 mil.

Esse movimento direcional da bolsa acontece apesar — ou justamente por causa — de uma fragilidade estrutural pouco discutida do setor corporativo brasileiro. Um estudo acadêmico recente mostra que o Brasil lidera, com folga, o ranking de “empresas zumbis” entre os mercados emergentes: companhias incapazes de gerar lucro suficiente para pagar sequer os juros de suas dívidas, mas que seguem operando graças à rolagem constante de crédito. Não é retórica — é estatística.

Como mostra a tabela a seguir, 16,75% das empresas listadas no Brasil são classificadas como zumbis estáticas e 13,94% como zumbis dinâmicas, mais que o dobro da média dos emergentes, que já é elevada por si só.

Fonte: Granzotto et al. (2025), Revista Brasileira de Finanças. Base de dados: S&P Capital IQ e Economatica.

O problema vai muito além de empresas mal geridas. O próprio estudo demonstra que essas firmas drenam capital, travam a produtividade, distorcem a alocação de crédito e elevam o risco sistêmico do mercado. Em vez de recursos migrarem para empresas eficientes e inovadoras, permanecem presos em estruturas inviáveis, criando um ambiente em que eficiência é punida e sobrevivência financeira é recompensada. É assim que a economia cresce pouco mesmo quando há estímulo.

Do ponto de vista do mercado, isso ajuda a explicar o paradoxo atual: fundamentos corporativos frágeis convivendo com uma bolsa em forte tendência de alta. Como já comentei, “opinião está no fluxo”. O capital estrangeiro não entra porque as empresas brasileiras são sólidas, mas porque precisa de exposição a risco, liquidez e retorno potencial nos emergentes. O Brasil, pelo tamanho e profundidade de mercado, acaba sendo o veículo natural dessa aposta — o que permite ondas técnicas poderosas mesmo sobre uma base estrutural doente.

O S&P 500 fechou a 6.978, sem alteração; o USDBRL a 5,1942, com alta de 0,25%; o EURUSD a € 1,1955, com queda de 0,71%; e o ouro a U$ 5.417, com alta de 4,56%.

Fique ligado!

Comentários

  1. David, então o movimento recente do ouro e outros metais está mais ligado à euforia de investidores PFs do que a uma percepção de aumento de risco macroeconômico? Você enxerga como alto o risco de estourar alguma crise?

    ResponderExcluir

Postar um comentário