Exportações com escala #S&P 500
Há exatamente um ano, o
presidente Donald Trump compareceu ao Rose Garden da Casa Branca segurando um
quadro com as alíquotas de importação que os Estados Unidos passariam a impor a
diversos parceiros comerciais. Aquele dia foi batizado por ele como “Liberation
Day”. Os objetivos declarados eram claros: elevar a arrecadação de impostos
para ajudar a cobrir o enorme déficit americano e trazer de volta indústrias
que haviam migrado para o exterior.
O primeiro objetivo foi alcançado
apenas parcialmente. Poucas semanas atrás, a Corte Suprema americana declarou
que o presidente não possuía poder para implementar boa parte daquelas
alíquotas, deixando o cenário futuro indefinido e iniciando um processo
conturbado de reembolso de bilhões de dólares. Quanto ao segundo objetivo — o
retorno da manufatura aos Estados Unidos —, os resultados foram ainda mais
distantes do pretendido.
Em vez de um renascimento
industrial doméstico, o que se observa é uma reconfiguração acelerada das
cadeias globais de suprimentos. A China, enfrentando as barreiras tarifárias,
adotou uma estratégia pragmática: usar o Vietnã como escala. Produtos chineses
são enviados para o território vietnamita, onde recebem montagem final — muitas
vezes de baixa complexidade técnica — e são reexportados para os Estados Unidos
como se fossem “made in Vietnam”. Uma viagem com escala, que permite contornar
parte das tarifas mais elevadas aplicadas diretamente à origem chinesa.
Análises de dados alfandegários
em nível de embarque, realizadas pela Bloomberg, confirmam que o deslocamento
de manufatura para o Vietnã, iniciado ainda no primeiro mandato de Trump,
ganhou velocidade notável. No ano passado, o Vietnã superou a China como
principal fornecedor de laptops e consoles de jogos ao mercado americano. Os
produtos finais montados no Vietnã ainda podiam enfrentar impostos adicionais
de até 20% relacionados ao combate ao fentanil quando carregavam componentes
chineses significativos, mas a manobra reduziu o impacto geral das tarifas.
Quando observo esses movimentos,
vejo neles a confirmação de uma lógica que sempre defendo: dinheiro não leva
desaforo. Empresários cujo objetivo primordial é maximizar lucros não hesitam
em buscar alternativas quando uma jurisdição torna-se excessivamente cara ou
incerta. Produzir integralmente nos Estados Unidos, com custos trabalhistas,
regulatórios e de energia muito mais elevados, revela-se, na prática, menos
atrativo do que organizar essa escala vietnamita. As empresas optam pelo
caminho que preserva margens e continuidade operacional.
Um ano após o Liberation Day, o
balanço revela que intervenções comerciais radicais geram respostas adaptativas
sofisticadas do setor privado. As empresas não paralisam à espera de clareza
regulatória; elas recalculam rotas, redistribuem capacidades e minimizam
custos. O protecionismo pode alterar fluxos, mas raramente controla o destino
final da produção com a precisão que seus arquitetos imaginam.
Essa lição não diminui a
legitimidade de questionar desequilíbrios comerciais ou práticas predatórias.
Ao contrário, reforça a necessidade de estratégias de longo prazo, baseadas em
compreensão profunda do funcionamento real das cadeias globais no século XXI.
Medidas voláteis tendem a ser absorvidas, contornadas ou redirecionadas,
gerando custos difusos sem transformar estruturalmente a geografia produtiva.
O comércio internacional continua
evoluindo por meio de adaptações constantes. Governos e empresas que reconhecem
essa realidade com clareza estratégica estarão melhor posicionados para navegar
os próximos anos. Subestimar a capacidade do mercado de encontrar escalas e
alternativas pode transformar intenções declaradas em resultados bem diferentes
daqueles sonhados.
Análise Técnica
No post “acreditando-em-papai-noel”, aventei duas hipóteses para o comportamento do S&P 500. Notei, na
ocasião, que ambas apontavam para objetivos semelhantes, ainda que com
implicações distintas para o futuro. Como ainda é cedo para determinar qual delas
se mostrará mais provável, optei por destacar a alternativa *c*):
“c) O pessoal vai ficar
desanimado*: essa opção é um subproduto da primeira, caso a bolsa resolva fazer
um pit stop à la Fórmula 1 — rápido. Decidi separá-las pois, nesse caso, além
da queda poder ser mais expressiva, será também mais demorada. Os objetivos
seriam 6.034 (-7%), 5.784 (-12%) ou ainda 5.544 (-15%).”
Eu poderia complicar ainda mais
afirmando que toda correção terminaria na onda A vermelha — o que
exigiria alterar o gráfico — e que o mercado estaria pronto para novas máximas.
Ainda assim, não posso afirmar que essa onda tenha se esgotado.
Como se vê, estou tentando
“adivinhar” o que vai acontecer ou, mais propriamente colocado, o que é mais
provável. Sugiro não fazer nada além de acompanhar o mercado com atenção,
observando o gráfico em várias janelas de tempo para identificar eventuais pistas.
O mercado nada mais é do que o
espelho da situação e do posicionamento dos participantes. Se nem o Trump sabe
o que fará amanhã — ou daqui a uma hora —, o mercado encontra-se na mesma
condição de incerteza.
O S&P 500 fechou a 5.528, com
alta de 2,91%; o USDBRL a R$ 5,1796, com queda de 1,63%; o EURUSD a € 1,1559, com
alta de 0,85%: e o ouro a U$ 4.682, com alta de 3,81%.
Fique ligado!
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