O passado a gosto do freguês #USDBRL

 



Nunca estive tão apático diante de uma eleição presidencial. Esse sentimento aparece quando já não resta esperança de que o próximo mandatário, seja ele quem for, consiga colocar o Brasil num rumo melhor. Entre as opções disponíveis, porém, não tenho dúvida: Lula já demonstrou, de forma comprovada, ser muito pior.

Um certo desânimo toma conta, misturado com raiva a cada notícia que leio. Enquanto o mundo discute inteligência artificial, nós nos ocupamos das picuinhas entre os ministros do Supremo. Tenho certeza de que essa diferença de prioridades fará diferença num futuro bem próximo.

No cenário internacional, a taxa de juros já superou a IA como centro das atenções, tamanha a perplexidade sobre o que significa viver num mundo em que o juro zero virou história longínqua e os rendimentos voltaram às máximas de décadas. O Tesouro americano de 10 anos abriu a semana a 5,20%, o maior nível em 19 anos. Os motivos dessa alta já expus aqui à exaustão, e não adianta reclamar: essa é a nova realidade.

A pergunta que interessa é outra: a bolsa pode subir com os juros subindo? Do ponto de vista técnico, parece ilógico, já que ambos competem entre si na hora de investir. Juro mais alto encarece o crédito, freia a economia e oferece retorno garantido, desestimulando as ações, bem mais arriscadas. Que tal olhar para o passado e ver o que aconteceu? Foi o que fez um artigo do WSJ.


[Gráfico: "10-year Treasury yield" e "S&P 500 performance" (2026), do artigo "Stocks Are Defying Surging Bond Yields. Here’s What History Says Could Come Next." (WSJ)]


O ponto de partida é 1994, uma das liquidações de títulos mais famosas da história. O Fed de Alan Greenspan subiu os juros em fevereiro e surpreendeu um mercado que via a inflação sob controle; a autoridade agia apenas por temer que a economia aquecida a alimentasse mais adiante. Os investidores não esperaram para ver: o rendimento de 10 anos saltou mais de um ponto percentual em apenas 40 pregões, e o S&P 500 chegou a cair 8%. Depois, as ações se recuperaram mesmo com os juros ainda em alta, apoiadas na confiança de que não haveria recessão e de que os lucros seguiriam firmes.


[Gráfico: "1994 — 10-year Treasury yield" e "S&P 500 performance", do artigo "Stocks Are Defying Surging Bond Yields. Here’s What History Says Could Come Next." (WSJ)]


Em 1999, o mercado de títulos se antecipou a Greenspan, com alta de cerca de um ponto nos meses que precederam nova rodada de aumentos preventivos. A bolsa oscilou por meses, até que a euforia pontocom atropelou a preocupação com o custo do dinheiro. O desfecho é conhecido: o S&P 500 atingiu o pico em 24 de março de 2000 e despencou 49% até o fundo do mercado baixista, no fim de 2002.

Em 2006, o petróleo em disparada pressionava a inflação. Os juros subiram, o Fed apertou, e as ações resistiram até maio, quando o temor com a economia derrubou bolsa e juros juntos. Já 2016 foi o exemplo clássico dos dois subindo em conjunto: a alta dos juros foi lida como sinal de normalização após anos de crescimento anêmico, e a vitória republicana em novembro, com promessas de corte de impostos e de regulação, deu combustível extra a ambos.

Por fim, 2022, por algumas medidas a pior liquidação de títulos da história americana e um ano péssimo também para as ações. O mercado acreditou no Fed quando este dizia que a inflação era passageira e, quando veio a guinada para altas agressivas, muita gente saiu correndo. Esse fantasma recente ainda assombra os investidores.

E agora? O Fed já subiu uma vez, mas o crescimento segue firme, impulsionado pelos gastos históricos em infraestrutura de IA de empresas que parecem imunes ao custo do crédito. Os otimistas não veem por que isso mudaria, sobretudo se EUA e Irã fecharem um acordo que derrube o petróleo. Os pessimistas acham que o Fed terá de subir até a bolsa sentir, já que o próprio mercado exuberante atrapalha o combate à inflação. Meghan Swiber, do Bank of America, lembra que Kevin Warsh olha para as condições financeiras como um todo, e as ações não dão hoje nenhum sinal de desaceleração.

Complemento com a coluna de John Authers, da Bloomberg, que traz números pouco confortáveis para quem está comprado. Pela primeira vez em quase 25 anos, o rendimento dos lucros do S&P 500 (o inverso do P/L) fica abaixo do rendimento do Tesouro de 10 anos. Durante cerca de duas décadas a conta favoreceu as ações; agora, pende para os títulos.


[Gráfico: "Are Bonds a Buy Again?", do artigo "The bond rout has a silver lining" (John Authers, Bloomberg)]


A medida de Robert Shiller, que compara o rendimento dos lucros ajustado ao ciclo com o juro de 10 anos, indica que o S&P 500 deve superar os títulos em apenas 1% ao ano na próxima década. É verdade que o indicador errou feio nos últimos anos, com as ações indo muito além do previsto, talvez por conta das sucessivas intervenções nos mercados. Mas a conclusão de Authers é certeira: o mercado de títulos deixou de servir de colchão caso os lucros decepcionem. E, com o Brent a US$ 104 e nenhum acordo sobre Ormuz, o cenário otimista do Irã segue no campo da esperança.


[Gráfico: "Excess CAPE Yield (ECY) and Subsequent 10 Year Annualized Excess Returns" (Robert Shiller), do artigo "The bond rout has a silver lining" (John Authers, Bloomberg)]


Esses cenários podem apontar num sentido ou noutro e, em vez de esclarecer, deixam o investidor com mais dúvidas. Não é à toa que a bolsa americana está receosa desde junho, dividida entre os lucros espetaculares das empresas e os riscos geopolíticos e de política monetária.

Percebo que a grande maioria ficaria aliviada se a bolsa caísse; estar próximo das máximas é sempre um incômodo para quem comenta. Nesses momentos, a análise técnica mostra sua grande utilidade, deixando o mercado dizer o que pensa. É ele que dita nossos ganhos ou perdas, não a minha opinião nem a dos analistas.

Achei interessante o estudo do WSJ, mas é só isso. Efeito prático, nenhum.

Na minha experiência, quando o mercado não reage a más notícias, ou reage apenas de forma superficial, como acontece agora, a simples ausência de novidades pode ser o catalisador da alta. E, se por acaso surgir uma notícia positiva, a subida pode ser forte. Liquidei a posição no S&P 500 na última sexta-feira por razões puramente táticas e técnicas. O viés é de alta, e sigo alerta.


Análise Técnica

No post “Pé no breque”, fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“Posso resumir que o mercado não quer subir, mas também não quer cair. Mas não fiquem ansiosos: em algum momento ele vai dar seu veredito sobre para onde quer ir, e nós aqui não vamos tentar adivinhar. Só para registrar: desde meados de maio até hoje, encontra-se entre R$ 5,00 e R$ 5,20.”



Minha última atualização foi há duas semanas, e nada de muito diferente ocorreu, a não ser que hoje ele está mais próximo da borda superior. Resolvi analisar numa janela mais ampla, de uma semana, e me parece bem razoável assumir que estamos próximos da alta que venho projetando. Ultrapassando R$ 5,26, conforme apontado abaixo, expõe-se o objetivo da onda X vermelha em R$ 5,74.



– Xiiiii, então o Lula vai ganhar?

Meu amigo, não conclua de forma tão direta assim. O dólar pode subir por vários motivos, que nem dependem exclusivamente de quem será o próximo presidente. Por sinal, vou juntar aqui a ideia do Brooks sobre o dólar e as eleições.

Brooks vê a eleição, a menos de duas semanas, como um empate técnico entre Lula e Bolsonaro, e afirma que o mercado premiaria uma vitória de Bolsonaro com um real bem mais forte. Ele compara 2026 com 2022: após a invasão da Ucrânia, a alta das commodities levou o dólar a R$ 4,60 em abril daquele ano. Agora, mesmo com o Brent subindo mais desde o início da guerra com o Irã, o real se valorizou bem menos, diferença que ele atribui a um prêmio de risco Lula. Seu valor justo segue em R$ 4,50, sustentado pelo enorme superávit comercial brasileiro, e sua aposta é que, com Bolsonaro eleito, o dólar iria rapidamente a R$ 4,80.


[Gráfico do artigo “How Much Can Brazil’s Real Strengthen?” (Robin J Brooks, Shadow Price Macro)]


Interessante que ele associa a queda do dólar a uma vitória de Flávio. Se eu enviar este post para ele, vai achar ridícula a minha projeção, mas não tem problema: se o dólar subir, basta ele trocar de camisa ou colocar a culpa no Lula, se ele ganhar! Hahaha.

O S&P 500 fechou a 7.683, com queda de 0,77%; o USDBRL a R$ 5,2263, com alta de 0,86%; o EURUSD a € 1,1369, com queda de 0,185; e o ouro a U$ 4.119, com queda de 3,88%.

Fique ligado!

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