Bolsa sem herdeiros #OURO #GOLD #EURUSD


No post “sinuca-de-bico”, publicado na última sexta-feira, expus a dificuldade que Kevin Warsh teria para não subir os juros quando quase todas as evidências apontavam no sentido contrário. Escrevi: “Pesando tudo, acredito que Warsh não vai subir os juros na semana que vem. Mas espero que deixe claro, nas entrelinhas ou nem tanto, que dezembro está logo ali”. Foi o que aconteceu ontem.

O Fed manteve a taxa entre 3,75% e 4%, num placar de 10 a 2, com Lisa Cook e Beth Hammack votando pela alta. Há um detalhe curioso: o comunicado passou a descrever o crescimento da economia como “forte”, e não mais como “sólido”, como em setembro. A economia acelerou mesmo depois da alta, e o Fed parou.

Warsh sabia que tinha poucos argumentos se fosse contestado, e não precisou de muito. A primeira pergunta da coletiva, feita por Colby Smith, do New York Times, foi direta: por que não subir agora? A resposta durou mais de três minutos, algo raro, e, como relata John Authers, da Bloomberg, enrolou sem responder.

Para dezembro, parece que todos estão convencidos de que o Fed vai subir. Ed Yardeni vai além e faz uma previsão ousada: alta de 0,50 ponto, para levar os juros ao nível neutro, que estima entre 4,25% e 4,50%. Diante de tantas evidências, vocês não acham que o Fed está seguindo o Mosca? Quem dera!

Se o Fed demora, mas segue um roteiro, a bolsa brasileira parece não ter roteiro nenhum. Uma reportagem da Bloomberg publicada ontem vai ao encontro do que penso, e os números são contundentes.

Nos anos 1990, Wall Street criava fundos dedicados à América Latina quase todos os dias. Eles passaram de 660 em 2015. Hoje, depois de fusões, vendas e fechamentos, restam 226 no mundo, segundo a Bloomberg Intelligence. Scott Piper, que administra cerca de US$ 5 bilhões em ações para o Itaú em Nova York, brinca que virou o último da espécie.


[“Hundreds of Latin America Funds Have Closed in Last Decade”, do artigo “Hundreds of Stock Funds Wiped Out in Latin America Market Collapse” (Bloomberg)]


O fim do ciclo das matérias-primas, há uns 15 anos, deixou como herança crescimento abaixo de 2% ao ano, queda de produtividade e pouca inovação. O índice MSCI da região ainda está 40% abaixo do pico anterior à crise de 2008. A região liderava até 2008; desde então, o S&P 500 disparou e deixou os emergentes e a América Latina para trás. Os ativos dos fundos de ações latino-americanas sediados fora da região caíram de mais de US$ 60 bilhões em 2010 para US$ 19 bilhões no ano passado.


[“Latin America Gave Up Its Commodity-Boom Lead”, do artigo “Hundreds of Stock Funds Wiped Out in Latin America Market Collapse” (Bloomberg)]


Sem empresas novas, o problema se agrava. Em cinco anos, Brasil e México, somados, tiveram apenas duas aberturas de capital acima de US$ 500 milhões; nos EUA foram 26 só neste ano. Nos dois maiores mercados da região, saem mais empresas da bolsa do que entram, e o número de companhias listadas no Brasil encolheu 15% desde o fim de 2023.


[“IPO Activity Has Dried Up Across Latin America in Recent Years”, do artigo “Hundreds of Stock Funds Wiped Out in Latin America Market Collapse” (Bloomberg)]


Quando surge uma empresa de crescimento acelerado, ela costuma abrir o capital nos EUA. Claudia Mesquita, do UBS BB, resume: para atrair o investidor estrangeiro, a empresa precisa estar no setor certo, pagar bons dividendos e ter caixa. Mesmo contando as que foram para Nova York, como o Nubank, são só quatro aberturas acima de US$ 500 milhões em cinco anos.

Piper diz que se espanta por olhar praticamente as mesmas empresas de dez anos atrás, enquanto nos EUA surgiram companhias de US$ 100 bilhões que nem existiam. Os números confirmam: 14 das 30 maiores empresas do índice latino-americano em 2026 já estavam no topo em 2007 e somam 45% do seu valor. No S&P 500, são 11, que respondem por apenas 19%.


[“Old Market Leaders Loom Larger in Latin America Than US”, do artigo “Hundreds of Stock Funds Wiped Out in Latin America Market Collapse” (Bloomberg)]


A concentração não para aí. Vale e Petrobras, sozinhas, representam 15% do índice da região. No Brasil, no México e na Colômbia, os três maiores acionistas controlam mais da metade das ações em 60% das empresas, bem acima da média de 57% dos 51 mercados acompanhados pela OCDE.

Ainda assim, o otimismo vinha crescendo. As ações pareciam baratas, e o índice da região bateu a máxima em 12 anos neste mês, com a aposta de que um candidato mais amigável ao mercado venceria a eleição. A reeleição de Lula derrubou tudo: na segunda-feira, algumas ações caíram mais de 60%, e a bolsa interrompeu as negociações pela primeira vez desde a pandemia. A vitória ainda travou cerca de US$ 6 bilhões em ofertas de ações.

Até os mais otimistas jogaram a toalha. Will Landers, que administrou mais de US$ 10 bilhões na BlackRock nos anos 2000, viu um fundo que geria perder mais de 90% dos ativos e deixou o setor. Para ele, a região nunca escapou do ciclo de euforia e quebra, e hoje não há tese de longo prazo. Claudia Mesquita, que acompanhou todos os ciclos, diz que este é o pior que já viu.

Quem ficou se agarra à disputa entre EUA e China por energia e minerais críticos, com a América Latina no meio do caminho. A Southern Copper, que triplicou de valor em cinco anos e passou de US$ 160 bilhões, é uma das raras formas de investir em IA na região. Mauricio Alvarez, que insiste num fundo dedicado à América Latina listado nos EUA, reuniu só US$ 29 milhões: os clientes gostam da ideia, mas hesitam na hora de aplicar.

Landers resume bem: quando a demanda por matérias-primas está forte, a região brilha; depois, resta torcer para que os governos mantenham juros e custo de capital baixos.

Para um país com mais de 200 milhões de habitantes, uma bolsa que depende de meia dúzia de empresas da velha economia é muito pouco, e a empresa que se destaca vai buscar seu capital lá fora. Com a continuidade de um governo estagnado em princípios da década de 1970, não me surpreenderia se até essas empresas dominantes retirassem suas ações da Bovespa para negociar só no exterior. Ontem, na seção de Análise Técnica, apresentei um quadro sombrio para o Ibovespa, e os dados de hoje apontam na mesma direção. É uma bolsa sem herdeiros.


Análise Técnica

No post "sentado_nas_fichas", fiz os seguintes comentários sobre o ouro: "Por todos os múltiplos técnicos, acabo associando a opção de deslocar a onda (B) vermelha, originando novos objetivos para a queda do ouro. No gráfico a seguir, apontei no retângulo aonde o metal pode chegar: US$ 3.483 (↓ 12%) ou US$ 3.311 (↓ 18%). Quero destacar que ainda é necessário ir abaixo de US$ 3.945. Por enquanto, tudo incerto e nada a fazer".



Nesta semana, o preço se aproximou do nível de US$ 3.945, onde a queda deverá se acelerar. Mas não se precipite e saia vendendo ouro: seja disciplinado e espere o rompimento, pois em correções surpresas acontecem, e uma delas poderia ser ter que empurrar a onda (B) vermelha mais para a direita, implicando altas do metal no curto prazo.



Em relação ao euro, comentei: "Durante a última semana, o euro esteve contido num intervalo bastante curto, e considero elevada a possibilidade de atingir US$ 1,1063. Estando a moeda única em US$ 1,1200, não vou propor uma operação de venda para ganhar essas migalhas e ainda correr o risco de estar errado".



Como nada aconteceu nesta semana, resolvi publicar o gráfico com janela semanal para que o leitor veja a diferença entre o que acontece com moedas e com ações: no primeiro caso, o conceito de "reversão à média" na análise técnica é muito mais factível do que em ações. Os fundamentalistas desse segmento adoram usar a PPP (paridade do poder de compra, segundo a qual o câmbio tende a se ajustar até que uma mesma cesta de produtos custe o mesmo nos dois países), que de 20 em 20 anos funciona e depois disso não. Não me leve a mal se você é um deles, mas os gráficos não levam a essa conclusão? (os 20 anos são ênfase minha; às vezes os períodos são mais curtos). Isso limita muito os ganhos, razão pela qual eles são compensados com volumes negociados muito superiores.

Voltando ao euro, notem que ele está contido numa faixa entre US$ 1,20 e US$ 1,05, se tirarmos os extremos ocorridos nos últimos 11 anos. Lógico que existiram períodos de grandes ganhos, como em 2017, na alta, e em 2021, na queda. Hoje ele se encontra próximo do centro desse intervalo. Voltando à Terra! Hahaha. Aguardo uma definição de curto prazo para eventual posição.



O S&P 500 fechou a 7.706, com queda de 0,48%; o USDBRL a R$ 5,3947, com alta de 0,80%; o EURUSD a € 1,1174, com alta de 0,18%; e o ouro a U$ 4.029, com queda de 0,93%.

Fique ligado!


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