Chovendo no molhado #usdbrl

 


As agências de rating, como Moody’s, S&P e Fitch, são como mães precavidas que alertam sobre o frio mesmo sob um sol escaldante. A Moody’s, em outubro de 2024, elevou a nota da dívida brasileira de Ba2 para Ba1, a um degrau do grau de investimento, enquanto S&P e Fitch mantêm o Brasil em BB-, dois níveis abaixo. O Mosca, em seu blog Acertar na Mosca, já apontava que esse otimismo da Moody’s, seduzido pelo discurso do governo, pode ser passageiro se as contas públicas continuarem a deteriorar. Nos EUA, a Moody’s, em 16 de maio de 2025, rebaixou a dívida soberana de Aaa para Aa1, última agência a abandonar o triplo A, após S&P (2011) e Fitch (2023). Esse movimento, embora tardio, reflete uma verdade que os mercados já precificavam: as dívidas soberanas, no Brasil ou nos EUA, caminham sobre uma corda bamba fiscal.

A elevação da nota brasileira pela Moody’s foi uma rara dissonância entre as agências. Enquanto S&P e Fitch, mais cautelosas, destacam o crescimento da dívida pública — de 74,3% do PIB em 2023 para 77,8% em 2024, com projeção de 83,9% até 2026 —, a Moody’s viu robustez no PIB e nas reformas, como a tributária. O Mosca, no entanto, é incisivo: a trajetória fiscal brasileira é frágil. O aumento do déficit primário e a dificuldade de estabilizar a dívida podem forçar a Moody’s a retroceder, como em outros momentos de euforia efêmera. As agências, historicamente, agem com atraso, ecoando o que o mercado já digeriu, como se chovessem no molhado.

Nos EUA, o rebaixamento da Moody’s não surpreendeu. O relatório DB CoTD: One minute closer to midnight? projeta um cenário alarmante: o déficit americano saltará de 6,4% do PIB em 2024 para cerca de 9% até 2035, com a dívida pública atingindo 134% do PIB. Se as isenções fiscais de 2017 forem estendidas, a dívida pode ultrapassar 200% do PIB nas próximas décadas. O gráfico abaixo, extraído do relatório, ilustra essa escalada preocupante.




A Moody’s justifica o rebaixamento americano pela queda na “acessibilidade da dívida” e pela alta dos rendimentos dos Treasuries, que superaram 5% para os títulos de 30 anos em maio de 2025, conforme artigo da Bloomberg. Esse movimento reflete a ação dos “bond vigilants”, investidores que, diante de déficits galopantes, exigem prêmios maiores para financiar o governo. O Mosca argumenta que, diferentemente de 2011, quando o rebaixamento da S&P levou a uma queda nas taxas por busca de segurança, o contexto atual — com inflação em alta e dúvidas sobre o dólar — sugere que os juros subirão em resposta ao risco fiscal.

O artigo Moody’s blues come for US sentiment destaca que, embora tardio, o rebaixamento americano sinaliza uma inflexão. Em 2011, os Treasuries eram o porto seguro global, atraindo investidores mesmo após o corte da S&P. Hoje, com as taxas de 10 anos superando os ganhos das ações (pela primeira vez em 25 anos), o cenário é mais volátil. O gráfico abaixo compara esses períodos.




No Brasil, a elevação da Moody’s pode atrair fluxos de capital de curto prazo, mas o endividamento crescente e a falta de reformas fiscais robustas mantêm o país vulnerável. O Mosca observa que as agências, ao “choverem no molhado”, subestimam a velocidade com que o humor do mercado pode mudar. Um choque externo, como uma crise fiscal americana, elevaria os custos de financiamento para emergentes, incluindo o Brasil, onde a dívida já consome uma fatia expressiva do orçamento.

Os EUA enfrentam um dilema ainda mais grave. O artigo Bond Investors Detect Trouble aponta que o estoque de Treasuries explodiu de US$ 4,5 trilhões em 2007 para quase US$ 30 trilhões hoje, com pagamentos de juros atingindo US$ 880 bilhões em 2024. A política de Trump, com cortes de impostos sem contrapartidas fiscais, agrava o déficit, projetado em 6,5% do PIB. A dependência de dívida de curto prazo, como destacado pelo Tesouro, aumenta a vulnerabilidade a crises de rolagem, especialmente em disputas sobre o teto da dívida. O Mosca reforça: a falta de disciplina fiscal pode despertar os “bond vigilants”, forçando juros ainda mais altos e pressionando a economia global.

As agências de rating, com seus alertas tardios, são como um termômetro quebrado que só registra a febre quando o paciente já está em crise. No Brasil, o flerte com o grau de investimento é frágil, ameaçado por uma trajetória fiscal insustentável. Nos EUA, o rebaixamento da Moody’s é um lembrete: a “exceção americana” não é imune às leis do mercado. O gráfico abaixo, do artigo Bond Investors Detect Trouble, mostra o crescimento explosivo do mercado de Treasuries, sublinhando a gravidade do problema.




A lição é clara: no Brasil e nos EUA, a insustentabilidade fiscal é o elefante na sala. As agências de rating apenas confirmam o que os mercados já sabem. O Brasil precisa de reformas estruturais para sustentar qualquer avanço; os EUA, de coragem política para enfrentar seus déficits. Como o Mosca sempre diz, se o céu está nublado, melhor levar o guarda-chuva.

 

Análise Técnica

No post “ficando-só-com-o-burro” fiz os seguintes comentários sobre o dólar: “Realizei um pequeno ajuste no stop loss para R$ 5,72, considerando a decomposição do movimento em janelas menores, conforme as tecnicidades da Teoria das Ondas de Elliott. Antes de comemorar, é importante alertar que, até o momento, a queda ocorreu em três ondas, como destacado pela linha azul. Para confirmar o movimento, é essencial que o nível de R$ 5,60 seja rompido. Vale mencionar que o stop loss tecnicamente correto seria R$ 5,76, mas optei por fixá-lo em R$ 5,72, considerado o “ideal” para esse tipo de trade”.




Os leitores podem deduzir pelo texto acima que eu estava cauteloso com o dólar e preparado para sair da posição caso a moeda não se comportasse como esperado. Foi exatamente o que aconteceu, conforme relatado no post “apple-com-novo-palpiteiro”: Estou liquidando a posição em dólares a R$ 5,6790, com maiores explicações no post de segunda-feira.

No gráfico abaixo, destaco o motivo: o dólar precisaria romper o nível de R$ 5,6026, o que ocorreu brevemente, mas logo voltou a subir, frustrando minha estratégia e formando apenas três ondas de queda (A - B - C, em preto). Quando entrei na posição, ressaltei que não era uma ideia brilhante, mas, mesmo assim, decidi tentar.




Os leitores devem ter notado que não alterei as contagens. A razão é que essa onda 4 vermelha pode se desenrolar de outra forma. Caso isso aconteça e o dólar caia para a faixa de R$ 5,40, um ganho de 4% na queda parece pequeno diante das prováveis oscilações. Por enquanto, prefiro permanecer sem posições.

O S&P500 fechou a 5.963,  em variação; o USDBRL a R$ 5,6488, com queda de 0,30%; o EURUSD a € 1,1243, com alta de 0,72%; e o ouro a U$ 3.230, com alta de 0,88%.

Fique ligado!

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